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Ordem das palavras em coreano: o verbo fica sempre no fim

Sujeito – Objeto – Verbo, e os três hábitos que quem fala português precisa desaprender.

Nesta página
  1. O verbo vai para o fim — e, por escrito, sempre
  2. Você só sabe o sentido quando a frase acaba
  3. Tudo, menos o verbo, pode mudar de lugar
  4. A negação tem duas posições — e uma delas parte a palavra
  5. O que descreve vem antes do que é descrito
  6. O sujeito desaparece quando é óbvio
  7. Três hábitos para desaprender
  8. Como criar o reflexo

O verbo vai para o fim — e, por escrito, sempre

O português é Sujeito–Verbo–Objeto: eu como arroz. O coreano é Sujeito–Objeto–Verbo: eu arroz como. Em português, na ordem neutra, só um pronome átono vai antes do verbo (eu te vi; em Portugal, eu vi-te); em coreano todo objeto fica antes, e o verbo nunca sai do fim na escrita: nem em perguntas, nem em negações, nem em frases longas. Só a fala descontraída acrescenta às vezes um pedaço depois (밥 먹었어, 나는).

저는 밥을 먹어요.Eu como arroz. — palavra por palavra: eu – arroz – como
저는 어제 친구를 만났어요.Ontem encontrei um amigo. — eu – ontem – amigo – encontrei
먹었어요?Você comeu? — nada muda de lugar; a entonação faz o trabalho

Repare no último exemplo: o coreano não inverte nada para perguntar, e o português também não — você comeu? é a afirmação com outra melodia.

A diferença aparece com palavra interrogativa: o português a puxa para o começo (o que você comeu?); o coreano a deixa no lugar do objeto (뭐 먹었어요?). Quem já disse você comeu o quê? já deixou a interrogativa parada no lugar — falta só o passo coreano de pôr o verbo depois dela.

Você só sabe o sentido quando a frase acaba

Esta é a consequência real, e é um problema de escuta antes de ser de gramática. Em português, o não vem antes do verbo e o tempo está na terminação dele, no meio da frase. Em coreano, negação, tempo e polidez moram todos no fim.

저는 밥을 먹었어요.Eu comi. — o passado só aparece na última palavra
저는 밥을 먹지 않았어요.Eu não comi. — a negação vem depois do verbo
저는 밥을 먹을 거예요.Eu vou comer. — o futuro também fica no fim

As cinco primeiras sílabas são idênticas nas três frases. Quem fala português decide, por hábito, o sentido no meio do caminho — e o coreano castiga isso. Treinar-se para esperar o fim é boa parte da prática de escuta no começo.

Tudo, menos o verbo, pode mudar de lugar

Em português, a ordem é a própria gramática: o cachorro mordeu o homem não é o homem mordeu o cachorro. O coreano gruda uma partícula em cada substantivo para marcar o papel dele, e o resto fica livre. A ordem vira questão de ênfase, não de certo ou errado.

저는 어제 친구를 만났어요.Ontem encontrei um amigo. — ordem neutra
어제 저는 친구를 만났어요.Ontem encontrei um amigo. — ênfase no quando
친구를 저는 어제 만났어요.Um amigo, eu encontrei ontem. — ênfase em quem

As três são gramaticais e querem dizer a mesma coisa: a partícula 를 mantém 친구 como objeto onde ele estiver. O português até adianta o objeto — o meu irmão, eu vi ontem —, mas com pausa e tom de contraste; em coreano não há andaime, a partícula já disse quem é quem.

O que não é livre é qual partícula cada verbo exige. Esse par é fixo, não se deduz do português, e é onde a tradução palavra por palavra quebra: às vezes o português usa preposição onde o coreano usa objeto direto, e às vezes o coreano marca com 이/가 o que o português trata como objeto.

친구 만나요.Encontro um amigo. — objeto direto dos dois lados
커피 좋아해요.Gosto de café. — gostar pede de; 좋아하다 pede 를
한국어 잘해요.Sou bom em coreano. — 잘하다 é verbo com objeto, não adjetivo
의사 됐어요.Virei médico. — 되다 exige 가, nunca 를
학생 아니에요.Não sou estudante. — 아니다 exige 이/가, e não 은/는

A negação tem duas posições — e uma delas parte a palavra

O português tem uma casa só para a negação: não antes do verbo. O coreano tem duas, com sentido quase igual. vai antes do verbo e é o que você ouve na fala; -지 않다 se prende depois da raiz e soa mais formal ou escrito.

먹어요.Não como. — forma curta, fala do dia a dia
지 않아요.Não como. — forma longa, um pouco mais formal
가요.Não consigo ir. — incapacidade, não falta de vontade

é não (quero) e é não consigo — o português também separa os dois, então isto se transfere. O que não se transfere é onde cai num verbo substantivo + 하다: ele entra no meio, entre o substantivo e 하다.

공부 해요.Não estudo. — 안 공부해요 está errado
해요.Não trabalho.
좋아해요.Não gosto. — 좋아하다 é uma palavra só, então 안 fica fora
공부하지 않아요.Não estudo. — a forma longa nunca parte nada; é sempre segura

Três verbos são trocados por outra palavra em vez de negados. Não existe 안 있다: o negativo de 있다 é outra palavra — em português bastaria um não.

있다 → 없다há, tem → não há, não tem
알다 → 모르다saber → não saber
맛있다 → 맛없다gostoso → sem gosto, ruim

-지 못하다 é a forma longa de 못 e vai depois do verbo como -지 않다: 가지 못해요 é 못 가요 no registro escrito. Mesmo sentido, e a divisão do verbo em 하다 desaparece: 공부하지 못해요 fica inteiro.

O que descreve vem antes do que é descrito

Aqui o coreano inverte o português por completo, e é por isso que as frases longas assustam. O português costuma pôr a descrição depois do substantivo — o livro que eu li ontem, casa grande (o adjetivo até sobe, grande casa, mas aí muda de sentido). O coreano empilha tudo antes. O que desaparece: uma terminação do verbo faz o serviço dele.

제가 어제 읽은o livro que eu li ontem — eu – ontem – lido – livro
옆집에 사는 사람a pessoa que mora ao lado — ao-lado – morando – pessoa
casa grande — em coreano o adjetivo também vai antes

Um trecho longo antes de um substantivo está descrevendo esse substantivo. Leia o substantivo primeiro e volte para a descrição.

A forma de 읽은 e 사는 é um sistema à parte — três formas para verbos, uma para adjetivos e um ponto de colisão. Ela tem página própria.

O sujeito desaparece quando é óbvio

O coreano corta o que o contexto já fornece — quase sempre o sujeito. Você já faz isso: Comeu? — Comi. Mas comi denuncia o sujeito, e 먹었어요 não: serve para eu, você, ele, nós; o contexto é a única pista. No Brasil a fala tende a manter o pronome (eu comi), e o hábito viaja junto: 저는 em toda frase soa estranhamente insistente.

밥 먹었어요?(Você) comeu?
네, 먹었어요.Sim, (eu) comi.
어디 가요?Aonde (você) vai? — a polidez fica na terminação 요, com ou sem sujeito

Três hábitos para desaprender

Como criar o reflexo

Ler dá tempo de reordenar na cabeça; ouvir não. O shadowing obriga você a produzir a ordem coreana na velocidade do coreano — o único jeito de o verbo no fim virar automático em vez de calculado.

Comece com frases curtas em que a terminação muda o sentido e repita em voz alta até a forma parecer natural.

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