Ordem das palavras em coreano: o verbo fica sempre no fim
Sujeito – Objeto – Verbo, e os três hábitos que quem fala português precisa desaprender.
Nesta página
- O verbo vai para o fim — e, por escrito, sempre
- Você só sabe o sentido quando a frase acaba
- Tudo, menos o verbo, pode mudar de lugar
- A negação tem duas posições — e uma delas parte a palavra
- O que descreve vem antes do que é descrito
- O sujeito desaparece quando é óbvio
- Três hábitos para desaprender
- Como criar o reflexo
O verbo vai para o fim — e, por escrito, sempre
O português é Sujeito–Verbo–Objeto: eu como arroz. O coreano é Sujeito–Objeto–Verbo: eu arroz como. Em português, na ordem neutra, só um pronome átono vai antes do verbo (eu te vi; em Portugal, eu vi-te); em coreano todo objeto fica antes, e o verbo nunca sai do fim na escrita: nem em perguntas, nem em negações, nem em frases longas. Só a fala descontraída acrescenta às vezes um pedaço depois (밥 먹었어, 나는).
| 저는 밥을 먹어요. | Eu como arroz. — palavra por palavra: eu – arroz – como |
| 저는 어제 친구를 만났어요. | Ontem encontrei um amigo. — eu – ontem – amigo – encontrei |
| 밥 먹었어요? | Você comeu? — nada muda de lugar; a entonação faz o trabalho |
Repare no último exemplo: o coreano não inverte nada para perguntar, e o português também não — você comeu? é a afirmação com outra melodia.
A diferença aparece com palavra interrogativa: o português a puxa para o começo (o que você comeu?); o coreano a deixa no lugar do objeto (뭐 먹었어요?). Quem já disse você comeu o quê? já deixou a interrogativa parada no lugar — falta só o passo coreano de pôr o verbo depois dela.
Você só sabe o sentido quando a frase acaba
Esta é a consequência real, e é um problema de escuta antes de ser de gramática. Em português, o não vem antes do verbo e o tempo está na terminação dele, no meio da frase. Em coreano, negação, tempo e polidez moram todos no fim.
| 저는 밥을 먹었어요. | Eu comi. — o passado só aparece na última palavra |
| 저는 밥을 먹지 않았어요. | Eu não comi. — a negação vem depois do verbo |
| 저는 밥을 먹을 거예요. | Eu vou comer. — o futuro também fica no fim |
As cinco primeiras sílabas são idênticas nas três frases. Quem fala português decide, por hábito, o sentido no meio do caminho — e o coreano castiga isso. Treinar-se para esperar o fim é boa parte da prática de escuta no começo.
Tudo, menos o verbo, pode mudar de lugar
Em português, a ordem é a própria gramática: o cachorro mordeu o homem não é o homem mordeu o cachorro. O coreano gruda uma partícula em cada substantivo para marcar o papel dele, e o resto fica livre. A ordem vira questão de ênfase, não de certo ou errado.
| 저는 어제 친구를 만났어요. | Ontem encontrei um amigo. — ordem neutra |
| 어제 저는 친구를 만났어요. | Ontem encontrei um amigo. — ênfase no quando |
| 친구를 저는 어제 만났어요. | Um amigo, eu encontrei ontem. — ênfase em quem |
As três são gramaticais e querem dizer a mesma coisa: a partícula 를 mantém 친구 como objeto onde ele estiver. O português até adianta o objeto — o meu irmão, eu vi ontem —, mas com pausa e tom de contraste; em coreano não há andaime, a partícula já disse quem é quem.
O que não é livre é qual partícula cada verbo exige. Esse par é fixo, não se deduz do português, e é onde a tradução palavra por palavra quebra: às vezes o português usa preposição onde o coreano usa objeto direto, e às vezes o coreano marca com 이/가 o que o português trata como objeto.
| 친구를 만나요. | Encontro um amigo. — objeto direto dos dois lados |
| 커피를 좋아해요. | Gosto de café. — gostar pede de; 좋아하다 pede 를 |
| 한국어를 잘해요. | Sou bom em coreano. — 잘하다 é verbo com objeto, não adjetivo |
| 의사가 됐어요. | Virei médico. — 되다 exige 가, nunca 를 |
| 학생이 아니에요. | Não sou estudante. — 아니다 exige 이/가, e não 은/는 |
A negação tem duas posições — e uma delas parte a palavra
O português tem uma casa só para a negação: não antes do verbo. O coreano tem duas, com sentido quase igual. 안 vai antes do verbo e é o que você ouve na fala; -지 않다 se prende depois da raiz e soa mais formal ou escrito.
| 안 먹어요. | Não como. — forma curta, fala do dia a dia |
| 먹지 않아요. | Não como. — forma longa, um pouco mais formal |
| 못 가요. | Não consigo ir. — incapacidade, não falta de vontade |
안 é não (quero) e 못 é não consigo — o português também separa os dois, então isto se transfere. O que não se transfere é onde 안 cai num verbo substantivo + 하다: ele entra no meio, entre o substantivo e 하다.
| 공부 안 해요. | Não estudo. — |
| 일 안 해요. | Não trabalho. |
| 안 좋아해요. | Não gosto. — 좋아하다 é uma palavra só, então 안 fica fora |
| 공부하지 않아요. | Não estudo. — a forma longa nunca parte nada; é sempre segura |
Três verbos são trocados por outra palavra em vez de negados. Não existe 안 있다: o negativo de 있다 é outra palavra — em português bastaria um não.
| 있다 → 없다 | há, tem → não há, não tem |
| 알다 → 모르다 | saber → não saber |
| 맛있다 → 맛없다 | gostoso → sem gosto, ruim |
-지 못하다 é a forma longa de 못 e vai depois do verbo como -지 않다: 가지 못해요 é 못 가요 no registro escrito. Mesmo sentido, e a divisão do verbo em 하다 desaparece: 공부하지 못해요 fica inteiro.
O que descreve vem antes do que é descrito
Aqui o coreano inverte o português por completo, e é por isso que as frases longas assustam. O português costuma pôr a descrição depois do substantivo — o livro que eu li ontem, casa grande (o adjetivo até sobe, grande casa, mas aí muda de sentido). O coreano empilha tudo antes. O que desaparece: uma terminação do verbo faz o serviço dele.
| 제가 어제 읽은 책 | o livro que eu li ontem — eu – ontem – lido – livro |
| 옆집에 사는 사람 | a pessoa que mora ao lado — ao-lado – morando – pessoa |
| 큰 집 | casa grande — em coreano o adjetivo também vai antes |
Um trecho longo antes de um substantivo está descrevendo esse substantivo. Leia o substantivo primeiro e volte para a descrição.
A forma de 읽은 e 사는 é um sistema à parte — três formas para verbos, uma para adjetivos e um ponto de colisão. Ela tem página própria.
O sujeito desaparece quando é óbvio
O coreano corta o que o contexto já fornece — quase sempre o sujeito. Você já faz isso: Comeu? — Comi. Mas comi denuncia o sujeito, e 먹었어요 não: serve para eu, você, ele, nós; o contexto é a única pista. No Brasil a fala tende a manter o pronome (eu comi), e o hábito viaja junto: 저는 em toda frase soa estranhamente insistente.
| 밥 먹었어요? | (Você) comeu? |
| 네, 먹었어요. | Sim, (eu) comi. |
| 어디 가요? | Aonde (você) vai? — a polidez fica na terminação 요, com ou sem sujeito |
Três hábitos para desaprender
- Decidir o sentido cedo demais. Em português, o essencial chega no meio da frase; em coreano, o fim pode virar tudo. Espere por ele.
- Pôr o sujeito toda vez. Se quem ouve já sabe de quem você fala, corte — inclusive o eu que a fala brasileira gosta de manter.
- Traduzir palavra por palavra. O verbo precisa viajar até o fim e a descrição, subir para antes do substantivo. Aceito isso, o resto vem junto.
Como criar o reflexo
Ler dá tempo de reordenar na cabeça; ouvir não. O shadowing obriga você a produzir a ordem coreana na velocidade do coreano — o único jeito de o verbo no fim virar automático em vez de calculado.
Comece com frases curtas em que a terminação muda o sentido e repita em voz alta até a forma parecer natural.
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